quarta-feira, 14 de março de 2012

A CRÔNICA E SEUS VARIADOS TIPOS...


Crônicas(reflexiva, narrativa, dissertativa, narrativa-descritiva, humorística, lírica,poética...)


Segundo Moacir Amâncio, a crônica, oficialmente, não existe. Mas, como ocorre com bruxas, há sempre alguém disposto a testemunhar que já a viu - e nas mais diferentes formas. Pode aparecer na forma de comentário sobre a cena política, ou como um recorte da infância. Ontem, disfarçou-se em digressões sobre o cotidiano. Amanhã, será poema em prosa. Às vezes exibe-se como trecho de algum romance que vai consumindo o autor ao longo de muitas madrugadas. Assume ainda características de ensaio, ou de experimentação estilística. Pode ser brincalhona, amarga, profunda, superficial, atrevida.

Tentativas de enquadrá-la com rigor em algum gênero não parecem recomendáveis. Catalogar a crônica como gênero menor, por exemplo, esbarra na evidência de que não existem gêneros menores. Há grandes e pequenos romancistas, grandes e pequenos poetas, grandes e pequenos contistas. Também há bons e maus cronistas. Contrapô-la ao conto é imaginar, equivocadamente, que crônicas seriam apenas histórias breves, inferiores ao conto em qualidade, densidade ou qualquer outro substantivo invocado para comparações dessa espécie. Numa frase: a crônica não passaria de conto leve e leviano. Mas como aplicar tal definição às obras-primas de um Rubem Braga ou um Fernando Sabino?

Inconstante, descompromissada, libertária, a crônica é avessa a regras e incompatível com camisas-de-força. Nos tempos da Província de São Paulo, por exemplo, já foi até anônima.

Raul Pompéia e Olavo Bilac assinavam textos curtos. Euclides da Cunha, Monteiro Lobato - obcecado com a questão da dicotomia atraso-progresso – publicavam, sem limitação de espaço, textos à altura das obras que lhes asseguraram uma vaga entre os grandes autores da língua portuguesa.

Além disso há outras particularidades: por exemplo ao perguntarem a Rubem Braga o que era a crônica, ele respondeu: "Repare bem: se não é aguda é crônica!".


CRÔNICA REFLEXIVA - Camila Magalhães de Lima


Crônica é o único gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem.
A crônica é primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal. Assim o fato de ser publicada no jornal já lhe determina vida curta, pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições. Há semelhanças entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. Assim como o repórter, o cronista se inspira nos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica. Entretanto, há elementos que distinguem um texto do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista sá-lhes um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como ficção, fantasia e criticismo, elementos que o texto essencialmente informativo não contém. Com base nisso, pode-se dizer que a crônica situa-se entre o Jornalismo e a Literatura, e o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.

A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está "dialogando" com leitor. Isso faz com que a crônica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista. Ao desenvolver seu estilo e ao selecionar as palavras que utiliza em seu texto, o cronista está transmitindo ao leitor a sua visão de mundo. Ele está, na verdade, expondo a sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam. Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a linguagem oral e literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê.
Em resumo, podemos determinar cinco pontos: narração histórica pela ordem do tempo em que se deram os fatos; seção ou artigo especial sobre literatura, assuntos científicos, esporte etc., em jornal ou outro periódico; pequeno conto baseado em algo do cotidiano; normalmente possui uma crítica indireta; muitas vezes a crônica vem escrita em tom humorístico.

A palavra crônica tem sua origem na palavra grega chronos, que tem seu significado relacionado ao tempo."Lembrar e escrever: trata-se de um relato permanente relação com o tempo, de onde tira, como memória escrita, sua matéria principal, o que fica do vivido." (ARRIGUCCI, 1987,p. 51)

Por meio dos assuntos, da composição aparentemente solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo o dia. Principalmente porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser mais natural. Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição...o fato de ficar tão perto do dia-a-dia age como quebra do monumental e da ênfase...Ora, a crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma belezaou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da verdade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas suas formas mais fantásticas, - sobretudo porque quase sempre utiliza o humor.(CANDIDO,1992, 13 e 14)


Tipos de crônicas:


a) CRÔNICA DESCRITIVA - ocorre quando uma crônica explora a caracterização dos seres animados e inanimados num espaço. Viva como uma pintura, precisa como uma fotografia ou dinâmica como um filme publicado;
b) CRÔNICA NARRATIVA – tem por eixo uma história, o que a aproxima do conto. Pode ser narrado tanto na 1ª quanto na 3ª pessoa do singular. Texto lírico (poético, mesmo na prosa). Comprometido com fatos cotidianos ("banais", comuns);
c) CRÔNICA DISSERTATIVA – opinião explícita, com argumentos mais "sentimentalistas" do que "racionais". Exposto na 1ª pessoa do singular quanto na do plural;
d) CRÔNICA NARRATIVO-DESCRITIVA – é quando uma crônica explora a caracterização de seres, descrevendo-os. E, ao mesmo tempo mostra fatos cotidianos no qual pode ser narrado em 1ª ou na 3ª pessoa do singular;
e) CRÔNICA HUMORÍSTICA – apresenta uma visão irônica ou cômica os fatos;
f) CRÔNICA LÍRICA – linguagem poética e metafórica. Expressa o estado do espírito, as emoções do cronista diante de um fato;
g) CRÔNICA POÉTICA – apresenta versos poéticos em forma de crônica;
h) CRÔNICA REFLEXIVA – reflexões filosóficas sobre vários assuntos. Apresenta uma reflexão de alcance mais geral a partir de um fato particular. É um texto analítico em que o cronista analisa o tema ligado à condição humana. Escrito em 1ª pessoa, a crônica não tem estrutura fixa, predomínio da linguagem coloquial, dialogismo com o leitor, que conferem ao texto um tom de conversa íntima, predomínio de recursos estilísticos: metáforas, comparações analogias etc. O assunto é abordado a partir da visão subjetiva do autor.



Na crônica "EU E BEBU NA HORA NEUTRA DA MADRUGADA", Rubem Braga desenvolve uma narrativa em 1ª pessoa que relata um dia inteiro e ele passa na companhia do Diabo, o qual ele cria uma certa intimidade e passa a chama-lo de Bebu, por Belzebu: "À tarde, eu já não o chamava de Belzebu, mas apenas de Bebu, e ele me chamava de Rubem." ( BRAGA,1998,p31).

Alfredo Bosi tem analisado, com argúcia e fecundidade, o que chama de materialismo animista (porque fundado na junção de corpo e alma), para explicar o modo de ser de toda nossa cultura popular, conforme ela se mostra no cotidiano do pobre. Neste, costumam fundir-se as esferas do trabalho manual, das necessidades básicas, da obrigada e difícil sobrevivência e as das crenças religiosas, superstições, de todo imaginário e produto mental, num mundo misturado e único-mundo esse, ao contrário do da racionalidade burguesa, nem um pouco desencantado, para empregar os mesmos termos de Max Weber utilizados pelo crítico...

Ainda no caso de mais modesto de Braga, a crônica toma uma forma realista que se plasma com essa matéria mesclada do cotidiano, aspirando, humildemente, à comunicação humana e fazendo da solidariedade social umvalor básico, a ser buscado sempre, apesar de certo ar de leão-marinho, soturno e solitário, que às vezes mostra o cronista. Sua disposição intrínseca para a percepção do poético no cotidiano popular, além da tendência modernista, via Bandeira, só pode ter sido facilitada e estimulada pela sua formação interiorana, com seus elementos de uma experiência mais socializada, no espaço rústico, à beira-rio ou à beira-mar, pela proximidade das pessoas humildes, que tanto aparecem nas crônicas, no lado de formas do trabalho manual, pelas quais sempre demonstrou o maior interesse e atenção. (ARRIGUCCI,2001, 17,18 E 19)

Nesta crônica referida, Braga desenvolve um processo reflexivo através da apresentação dos fatos. A história é narrada e coloca o leitor diante de diferentes pontos de vista em relação ao Bem e Mal. O diálogo entre Rubem e Bebu, oferece ao leitor a oportunidade de ver o ponto de vista de quem é discriminado, e dessa forma a reflexão surge para o leitor de modo natural. Uma análise profunda de valores sociais e espirituais, vinculados ao modo de vida e cultura popular. A crônica sugere de forma sucinta uma revisão dos conceitos humanos, formado ao longo do tempo. "- Há o Bem e o Mal, mas não é como você pensa. Afinal quem é você? Em que você pensa? Com certeza naquela moça que vende cigarros, de olhos de garapa, de cabelos castanhos..." (BRAGA,1998, P.32)

Na crônica "UM PÉ DE MILHO", o cronista mais uma vez induz o leitor à uma reflexão. A crônica está em 1ª pessoa eapresenta uma narrativa de punho íntimo que revela ao leitor a origem do escritor, seu íntimo e a realidade em que vive. Parece uma meditação lírica de um Eu que narra, mas aparenta estar falando sozinho, recordando e refletindo sobre a própria vida. "Sou um ignorante, um pobre homem de cidade. Mas eu tinha razão..." ( BRAGA,1998,p.42).

Dentro da crônica existe um fluxo narrativo intenso, que oferece ao texto um ritmo que enfatiza o tempo do que é narrado, dando uma importância de destaque à experiência vivida. Além da utilização de metáforas e simbologias que oferecem um lirismo constante no corpus do texto: "... mas na glória do seu crescimento, tal como o vi em uma noite de luar, o pé de milho parecia um cavalo empinado, as crinas ao vento - e em outra madrugada parecia um galo cantando." (BRAGA,1998,p.43)
A crônica se refere à roça e à cidade, causando uma mesclagem entre as duas através do ser humano. Um homem que carrega uma cultura do meio rural, mas vive atualmente na cidade. Resgata sua origem através de um pé de milho, que metaforiza a presença do ser fora do seu habitat natural. Esse resgate da origem confere ao homem um conforto e preenchimento pra alma. " E eu não sou mais um medíocre homem que vive atrás de uma chata máquina de escrever: sou um rico lavrador da Rua Júlio Castilhos." ( BRAGA,1998, p.43)

Dentro dessa experiência narrada, o autor oferece ao leitor a oportunidade de fazer uma auto-análise, conferindo a si mesmo seus valores. "No centro da obra narrativa de Rubem Braga estará talvez o desconcerto do narrador tradicional, cujo saber, fundado numa experiência comunitária de outros tempos, perde a eficácia no mundo moderno. É muito perceptível a dificuldade desse narrador para generalizar a experiência pessoal, transformando-a em conselho prático para os outros, ao mesmo tempo que essa experiência em si mesma se vai tornando cada vez mais rala, num mundo que adotou o ritmo desnorteante das mudanças contínuas e imprevisíveis." (ARRIGUCCI, 2001, p.25)


Na crônica "SOBRE O AMOR, ETC.", Rubem Braga trás de forma filosófica uma análise do ser humano e seus sentimentos. O texto parece um monólogo interior, mas oferece diretamente uma mensagem ao leitor, diferentemente das outras duas crônicas, que induziam à reflexão de forma indireta, esta aplica uma análise filosófica do que é o amor e configura a mesma sugerindo-a ao leitor como conselho. O autor busca o leitor para a analise e chama a atenção dele para a mesma conclusão: "De onde concluireis comigo que o melhor é não amar..." (BRAGA,1998,p.89)


A temática do amor é universal, por isso pode ser voltada a todos os tipos de leitores. Rubem Braga, na ausência de assunto ou acontecimentos, busca no próprio âmago a essência do que vai falar. Dentro da falta de assunto, ele retira algo pra ser falado. No caso dessa crônica, Rubem buscou a Razão e o Amor para mostrar dois pólos como opostos e impossível de conciliar. "Têm razão; mas não têm paixão...Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar...Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida." (BRAGA,1998, p. 88)


Desde o princípio, deve ter sido difícil dizer, com precisão crítica, o que eram aquelas crônicas. Pareciam esconder a complexidade pressentida sob límpida naturalidade. Disfarçavam a arte da escrita numa prosa divagadora de quem conversa sem rumo certo, distraído com o balanço da rede, passando o tempo, mais para se livrar do ócio e do tédio, sem se preocupar com o jeito de falar. E, no entanto, uma prosa cheia de achados de linguagem, conseguida a custo, pelejando-se com as palavras: um vocabulário escolhido a dedo para o lugar exato; uma frase em geral curta, com preferência pela coordenação, sem temer, porém, curvas e enlaces dos períodos mais longos e complicados; uma sintaxe, enfim, leve e flexível, que tomava liberdades e cadências da língua coloquial, propiciando um ritmo de uma soltura sem par na literatura brasileira contemporânea. (ARRIGUCCI, 2001, p.6)


Nas crônicas analisadas neste artigo, temos a reflexão presente em todas, as duas primeiras de forma indireta e a terceira como conselho a refletir. Os temas tratados são universais: Bem e Mal, Identidade e Amor (respectivamente). Dentro dessa temática percebemos a polaridade e a tentativa de quebra das mesma, pelo autor – através de análise. Exemplo: com a reflexão passamos a ver a possibilidade do Bem e Mal num mesmo ambiente, da junção da cidade e zona rural, da identidade formada com aspectosculturais diferentes e a convivência da paixão do amornum aspecto racional.
Todas essas análises configuram a visão de mundo do autor, que coloca suas crenças de forma clara excitando o leitor a pensar por um ângulo diferente e descobrir o seu próprio ponto de vista. Mesmo usando crônica narrativa, poética ou filosófica, Rubem Braga dá esse tom reflexivo, que causa impacto no cotidiano do leitor, que passa a pensar em coisas do dia-a-dia, mas que muitas vezes não são analisadas.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRAGA, Rubem. 200 Crônicas Escolhidas: as melhores de Rubem Braga.11ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 1998.
CANDIDO, Antonio. A crônica. O gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. In – A Vida ao Rés-do-Chão. Campinas, SP. Editora da UNICAMP; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992.
ARRIGUCCI Jr., Davi. Braga de novo por aqui. 11ª edição. São Paulo: Global Editora, 2001.
ARRIGUCCI Jr., Davi. Enigma e Comentário, ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Editora Schwarcz, 1987.



Literatura e crime - Roque de Brito Alves

Publicado no Diario de Pernambuco - 18.11.2009

1 - Sem dúvida, o crime sempre foi fonte de inspiração literária, desde a citação da morte de Abel por Caim na Bíblia, pois o fenômeno humano e social existente na arte não podia ignorar o grande conteúdo humano e social do delito e do delinquente. Inegável, assim, a grande afinidade entre a obra de arte em geral e sobretudo a literatura e a criminalidade. Se a arte inspira-se na vida, reflete a realidade, busca expressar também o homem e a sociedade não podia desconhecer o fenômeno humano e social do crime (antes do seu aspecto jurídico-penal), especialmente a personalidade do delinquente. Tal finalidade não pode, entretanto, chegar ao exagero do poeta inglês Thomas de Quincey ao afirmar, no século 19, que o homicídio era uma das Belas Artes...

2 - Em intuição genial sobre o crime e o criminoso, encontramos a literatura dos grandes trágicos gregos (400 a 500 anos antes de Cristo) Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, com personagens como o parricida Édipo, Medéia (assassina dos filhos), Electra, etc., onde a alma humana criminosa é descrita em páginas imortais. Posteriormente, na Idade Média os vícios, os pecados, os delitos na descrição da Divina Comédia de Dante, sobretudo no Canto "O Inferno". A tragédia grega, é símbolo de assassinatos, incestos, adultérios, dominada pelo destino ("Ananké") como fatalidade e produto da herança como causa maior do delito, o que foi erroneamente defendido no século 19.

3 - Com Shakespeare (1564-1616), o mestre maior das paixões humanas, os seus personagens tornaram-se modelos ou tipos de criminosos como "Hamlet" - o delinquente louco -, "Othello" - o criminoso passional -, "Macbeth" - o delinquente por ambição política, com a Lady Macbeth como símbolo maior da criminosa perversa, -, "Ricardo III" - o delinquente por complexo de inferioridade -, com análises que no séc. 19 a ciência veio a confirmar sobre o fenômeno geral da criminalidade.

4 - Nesta síntese, já no séc.19, os seus grandes romancistas como Dostoievsky (sobretudo em "Crime e Castigo" com o seu personagem Raskolnikof com o seu "complexo de culpa, o problema penitenciário em "Recordações da Casa dos Mortos") o romance naturalista de Zola "A Besta Humana" (com o personagem Jacques Lantier inspirado na obra "O Homem Delinquente" de Lombroso como um criminoso nato) além de suas outras obras como "Nana", Tereza Raquin, "Germinal", etc.; o romance psicológico de Eça de Queiroz, em Portugal, com "O Crime do Padre Amaro", é a loucura moral dos personagens de "O Intruso" de D'Annunzio e de "Os Subterrâneos do Vaticano" de Gide, é o adultério do romance "Madame Bovary" de Flaubert, o criminoso romântico Jean Valjean de "Os Miseráveis" de Victor Hugo, são os crimes baseados nas perversões sexuais do Marquês de Sade no séc. 18. Além disso, embora não seja crime constatou-se o aumento do suicídio devido a influência do livro "Werther" de Goethe. Nas últimas décadas do século 20 o romance policial de Agatha Christie com os seus enredos criminosos bem detalhados.

5 - Em nossopaís, basta citar os romances de José Lins do Rego, José Américo de Almeida, de Jorge Amado, o teatro de Nelson Rodrigues, etc., com descrições de delinquentes das áreas rurais e urbanas - cangaceiros, pistoleiros, delinquentes fanáticos, anormais, etc.,- em um grande documentário de valor literário e útil cientificamente para o estudo da criminalidade nacional.

6 - Assim sendo, a literatura estrangeira e nacional está cheia de tipos criminosos e inúmeras formas de delitos, comprovando a nossa tese no sentido de que a intuição da arte sobre o crime e o criminoso sempre precedeu a sua análise científica e sua formulação jurídico-penal.
Julio Jeha, em seu sítio Crimes, Pecados e Monstruosidades diz que a literatura criminal se funda na tensão entre o delito e o relato. Para ele, “o crime tende ao segredo, ao silêncio, a certa margem de simulação e dissimulação, à ilusão e à construção de uma mentira”. Esclarece, ainda, que “a detecção se constrói como se fora um estudo do texto, revelando as suas estratégias de enunciação”. Jeha ressalta que cabe ao leitor emparelhar-se ao narrador na interpretação das pistas e elaborar uma hipótese que será confirmada (ou não) ao final da busca. Dessa maneira, Jeha afirma que “a narrativa policial se desenvolve em dois sentidos: em direção ao passado, quando o crime foi cometido, e em direção ao futuro, quando o enigma será solucionado”.
Pode-se notar que há uma analogia de procedimentos metodológicos estabelecida através dos tempos que fez da prática de investigação dos crimes reais uma espécie de hermenêutica: interpretação dos textos e contextos, da ocorrência, dos signos e de seu valor simbólico, do sentido das palavras proferidas pelo incriminado de forma que, aqui como no dito acerca de Menandro, parece que a vida imita a arte.
O problema a ser enfocado neste projeto é o porquê introduzir o crime no espaço ficcional, o qual parece ser um artifício, um exercício para entender os mecanismos que geram possibilidades criminosas. Para tanto, nosso objetivo será levantar a gênese e das funções do delito na ficção. Por “literatura criminal”, entendemos aquela em que ocorre uma infração da ordem, acompanhada ou não de sua descoberta e sua punição, tanto no nível diegético quanto no extradiegético.



O cronista é um escritor crônico – Affonso Romano de Sant’Anna



O primeiro texto que publiquei em jornal foi uma crônica. Devia ter eu lá uns 16 ou 17 anos. E aí fui tomando gosto. Dos jornais de Juiz de Fora, passei para os jornais e revistas de Belo Horizonte e depois para a imprensa do Rio e São Paulo. Fiz de tudo (ou quase tudo) em jornal: de repórter policial a crítico literário. Mas foi somente quando me chamaram para substituir Drummond no Jornal do Brasil, em 1984, que passei a fazer crônica sistematicamente. Virei um escritor crônico.
O que é um cronista?

Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como uma galinha, bota seu ovo regularmente. Carlos Eduardo Novaes diz que crônicas são como laranjas, podem ser doces ou azedas e ser consumidas em gomos ou pedaços, na poltrona de casa ou espremidas na sala de aula.

Já andei dizendo que o cronista é um estilita. Não confundam, por enquanto, com estilista. Estilita era o santo que ficava anos e anos em cima de uma coluna, no deserto, meditando e pregando. São Simeão passou trinta anos assim, exposto ao sol e à chuva. Claro que de tanto purificar seu estilo diariamente o cronista estilita acaba virando um estilista.

O cronista é isso: fica pregando lá em cima de sua coluna no jornal. Por isto, há uma certa confusão entre colunista e cronista, assim como há outra confusão entre articulista e cronista. O articulista escreve textos expositivos e defende temas e idéias. O cronista é o mais livre dos redatores de um jornal. Ele pode ser subjetivo. Pode (e deve) falar na primeira pessoa sem envergonhar-se. Seu “eu”, como o do poeta, é um eu de utilidade pública.

Que tipo de crônica escrevo? De vários tipos. Conto casos, faço descrições, anoto momentos líricos, faço críticas sociais. Uma das funções da crônica é interferir no cotidiano. Claro que essas que interferem mais cruamente em assuntos momentosos tendem a perder sua atualidade quando publicadas em livro. Não tem importância. O cronista é crônico, ligado ao tempo, deve estar encharcado, doente de seu tempo e ao mesmo tempo pairar acima dele.


CRIME HEDIONDO É O QUE ATINGE A COLETIVIDADE


JOEL DE SÁ
SP, 17/06/2010.

CRIME é a prática de atos danosos e que atinge a personalidade, a estrutura mental ou a integridade física de alguém, direta ou indiretamente.
Crimes HEDIONDOS são, entretanto, os que causam mais prejuízos ao caráter e à integridade física da pessoa, e são objetos de repulsa. O vocábulo HEDIONDO é definido semanticamente como: sórdido, repugnante, horrendo.
A Lei 8072/90 destaca-o como o que causa maior aversão à coletividade. Imagina-se que haja uma manobra política para incluí-los no Código Penal, na forma especial. As personalidades envolvidas nessa manobra (parlamentares, juristas e outros técnicos), os “cuspidores de regras”, nem sempre as criam para si, mas para a “massa sem palavra” brasileira.

Qual o termômetro usado para avaliar a aplicação dessas leis, não se sabe. Os crimes considerados hediondos são estupro, assassinatos, seqüestro etc. Embora não sejam desaprovados pela sociedade, os crimes de CORRUPÇÃO, são tolerados por essa mesma sociedade. Eles fazem parte da lista dos crimes inclusos na Lei 8.072. São, entretanto, um dos crimes mais graves. A fuga de dinheiro público, só na última década, tem somado um montante de bilhões de reais.

Quantidade inúmera de crianças adoeceram por falta de atendimento médico adequado. Milhares de pais de família morreram devido ao péssimo atendimento ou pela sua inexistência. Milhões de crianças e adultos se tornaram ignorantes por deixar de frequentar escolas ou por ter sido mal assistidas nelas. Muitos jovens entraram para o crime pela falta de alternativa ou por terem sido cooptadas pelo crime organizado, que por sua vez, deixou de ser combatido pela incompetência do estado.

Os crimes de corrupção têm um efeito lento, mas devastador. Causam danos irreparáveis a toda uma comunidade, povo e nação. Os rombos aos cofres públicos reduzem ou anulam a capacidade de tirar da ignorância milhões de crianças, de curar dezenas milhares de homens e mulheres com doenças graves, de se evitar que epidemias atinjam regiões inteiras. Esses montantes sumidos “misteriosamente” do erário público impedem que a estrutura governamental funcione com eficiência para combater o crime organizado, as epidemias e a educação deficiente.

São Essas pragas que provocam enorme prejuízo, tornando o povo mais ignorante, mais doente, mais vulnerável e mais pobre, retardando o desenvolvimento do país. Na situação ideológica em que o país se encontra é um equívoco deduzir que simplesmente pelo fato de se ter ao alcance as tecnologias, acesso à escola e às informações, já termos alcançado um grau de desenvolvimento ideal.


Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=137614#ixzz1kHjQzOdC
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Crimes sexuais: da antiga capação para a moderna castração química

Archimedes Marques

Todo crime sexual é acompanhado de ato depravado, sórdido, repugnante, horrendo e produz sequelas irreparáveis para as vítimas e seus familiares. Tais crimes sempre foram combatidos pela sociedade desde os tempos mais remotos.

De uma maneira geral, em quase todas as nações, os crimes de ordem sexual eram punidos nos parâmetros da Lei de Talião, ou seja, o autor sofria castigo igual, parecido ou relacionado ao dano por ele causado.

A máxima OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE fora vivenciada por muito tempo em quase todas as Leis das diversas Nações, em destarte, na Idade média através da Inquisição comandada pela própria Igreja católica.

A Lei de Talião era interpretada não só como um direito, mas até como uma exigência social de vingança em favor da honra pessoal, familiar ou tribal.

O Brasil colônia de Portugal, assim como tal, também seguia tais parâmetros punitivos para os seus diversos tipos de criminosos. As Ordenações do Reino que compunham as Leis Manuelinas, Afonsinas e Filipinas, formavam a base do sistema penal português, que por sua vez também vigoravam no Brasil. Entre as penas estavam a morte, a mutilação através do corte de membros, o degredo, o tormento, a prisão perpetua e o açoite. Até mesmo depois da sua Independência de Portugal, o Brasil continuou adotando penas não menos violentas e cruéis, seguindo de certa forma, os antigos ensinamentos de Talião na sua organização penal.

O homem que praticasse determinados atos sexuais considerados imorais ou criminosos poderia ser condenado à castração, então conhecida por capação que podia ser concretizada de várias maneiras, contanto que com o castigo o agressor não tivesse mais possibilidade de voltar a delinqüir devido a perda total do seu apetite sexual.

Buscando um caso prático para melhor ilustrar o presente texto só encontrei a suposta e inusitada Sentença Judicial datada de 15 de outubro de 1833 ocorrida na antiga Villa de Porto da Folha, hoje município, situado às margens do rio São Francisco aqui no nosso querido Estado de Sergipe. A referida Sentença que é relacionada a uma tentativa de estupro possui a linguagem arcaica da época e dizem que o dito documento está guardado no Instituto Histórico do vizinho Estado de Alagoas.

Tal sentença fora divulgada em alguns jornais virtuais e sites jurídicos do Brasil, a exemplo das páginas Ad referendum, Usina de letras, Recanto das letras, o Norte de Minas Gerais, Jus navigandi, Teologikas, Livros e afins, Estudos de direito, Fórum Jurídico, Jurisciência, Consultor Jurídico, Almanaque Brasil, Pérolas do Judiciário... Por isso a transcrevo acreditando ter sido fato real e documento verídico:

“SENTENÇA DO JUIZ MUNICIPAL EM EXERCÍCIO, AO TERMO DE PORTO DA FOLHA – 1883. SÚMULA:

Comete pecado mortal o indivíduo que confessa em público suas patifarias e seus boxes e faz gogas de suas víctimas desejando a mulher do próximo, para com ella fazer suas chumbregâncias. O adjunto Promotor Público representou contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Senhora Sant´Anna, quando a mulher de Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em moita de matto, sahiu dela de sopetão e fez proposta a dita mulher, por quem roía brocha, para coisa que não se pode traser a lume e como ella, recusasse, o dito cabra atrofou-se a ella, deitou-se no chão deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, e não conseguio matrimônio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreyo Correia e Clemente Barbosa, que prenderam o cujo flagrante e pediu a condenação delle como incurso nas penas de tentativa de matrimônio proibido e a pulso de sucesso porque dita mulher taja pêijada e com o sucedido deu luz de menino macho que nasceu morto. As testemunhas, duas são vista porque chegaram no flagrante e bisparam a pervesidade do cabra Manoel Duda e as demais testemunhas de avaluemos. Dizem as leis que duas testemunhas que assistem a qualquer naufrágio do sucesso faz prova, e o juiz não precisa de testemunhas de avaluemos e assim: Considero que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento, por quem roía brocha, para coxambrar com ella coisas que só o marido della competia coxambrar porque eram casados pelo regime da Santa Madre Igreja Cathólica Romana. Considero que o cabra Manoel Duda deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas coxambranças viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver. Considero que a paciente estava pêijada e em consequência do sucedido, deu a luz de um menino macho que nasceu morto. Considero que a morte do menino trouxe prejuízo a herança que podia ter quando o pae delle ou mãe falecesse. Considero que o cabra Manoel Duda é um suplicado deboxado, que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer coxambranças com a Quitéria e a Clarinha, que são moças donzellas e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia. Considero que o cabra Manoel Duda está preso em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar do próximo que elle desejou. Considero que sua Majestade Imperial e o mundo inteiro, precisa ficar livre do cabra Manoel Duda, para secula, seculorum amem, arreiem dos deboxes praticados e as sem vergonhesas por elle praticados e apara as fêmeas e machos não sejam mais por elle incomodados. Considero que o Cabra Manoel Duda é um sujeito sem vergonha que não nega suas coxambranças e ainda faz isnoga das incomendas de sua víctima e por isso deve ser botado em regime por esse juízo. Posto que: Condeno o cabra Manoel Duda pelo malifício que fez a mulher de Xico Bento e por tentativa de mais malifícios iguais, a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete. A execução da pena deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio carrasco o Carcereiro. Feita a capação, depois de trinta dias o Carcereiro solte o cujo cabra para que vá em paz. O nosso Prior aconselha: Homine debochado debochatus mulherorum inovadabus est sentetia qibus capare est macete macetorim carrascus sine facto nortre negare pote. Cumpra-se a apregue-se editaes nos lugares públicos. Apelo ex-officio desta sentença para juiz de Direito deste Comarca. Porto da Folha, 15 de outubro de 1833. Assinado: Manuel Fernandes dos Santos, Juiz Municipal suplente em exercício.”

A capação feita a macete consistia em colocar os testículos do cidadão condenado em local rígido esmagando-os com um forte golpe certeiro, usando para tanto um grosso pau roliço tipo bastão ou cassetete, ou mesmo, uma marreta fabricada com madeira de lei.

Com o tempo a pena de Talião e outras cruéis desapareceram nas legislações modernas na quase totalidade dos Países, sob a influência de novas doutrinas e novas tendências humanas relacionadas com o Direito Penal, entretanto, muitas pessoas ainda defendem a volta de métodos parecidos, como fórmula eficaz para arrefecer o recrudescimento da violência urbana.

Apesar do nosso ordenamento jurídico ter abolido de vez as penas cruéis, a discussão sobre a aplicação de uma pena peculiar para aqueles que cometem crimes de ordem sexual, destarte para aqueles praticados contra crianças através da chamada pedofilia, volta a tona agora de maneira mais presente, vez que tramita no Congresso nacional o Projeto de Lei nº 552/07 de autoria do Senador Gerson Camata para propor modificação no Código Penal com a pena de castração através da utilização dos recursos químicos, ou seja, a castração química para tais criminosos. A denominada castração química consiste na aplicação de injeções hormonais inibidoras do apetite sexual, aplicadas nos testículos, conduzindo o condenado à impotência sexual em caráter definitivo e de maneira irreversível.

A proposta inspira-se em ordenamentos jurídicos estrangeiros onde a sanção é aplicada, a exemplo dos estados do Texas, Califórnia, Flórida, Louisiana e Montana nos Estados Unidos da America, em certos países da Europa e até aqui na América do Sul, na vizinha Argentina, entretanto, no Brasil, tal proposta esbarra em sérios óbices constitucionais, vez que é tema relativo ao direito fundamental à integridade física, assim como às garantias contra penas cruéis, desumanas, degradantes e perpétuas estatuídas para todos.

Para muitos legisladores, advogados e juristas a proposta é repudiada e considerada totalmente inconstitucional. Para alguns não passa de um Projeto eleitoreiro populista que visa agradar e enganar o povo, mas que vai de encontro a Constituição Federal e, por isso, mesmo que seja aprovado no Congresso nacional será desfeito pelo Supremo Tribunal Federal. Para outros a própria Carta Magna pode também ser alterada para adaptação de tal pena. Para tantos outros tal penalidade é um retrocesso à Lei de Talião, uma volta à época medieval, um atraso na humanidade, incabível no nosso ordenamento jurídico.

A discussão também gira em torno de se estudar se a castração química é uma pena cruel ou se é somente um tratamento médico, sem maiores gravidades físicas para os autores irrecuperáveis e reincidentes dos crimes sexuais, destarte para os pedófilos, que com a medida perderão apenas o libido, com grande possibilidade de não mais voltarem a delinqüir pois sem a vontade sexual não há o porque da realização do ato.

A vivencia policial e a prática profissional ao longo dos tempos nos contemplam pelo lado psicológico adquirido em casos investigados, a asseverar sem medo de errar, que geralmente os maníacos sexuais parecem não ter sentimentos de culpa e, quando chegam a confessar os crimes inerentes, discorrem como se os seus atos insanos fossem normais, negam suas carências, suas dificuldades, demonstram ser completamente desconectados com sentimentos próprios e muito menos com os sentimentos alheios, com os sentimentos das vítimas e seus familiares, por isso, quase sempre reincidem nos seus crimes quando colocados em liberdade.

É fato contundente e abominável para toda a sociedade que, no nosso pais, um quarto das vítimas de crimes sexuais são crianças com menos de dez anos de idade, porém esse debate não pode ficar apenas adstrito ao Congresso Nacional, deve se expandir para todas as camadas sociais. Advogados, juristas, doutrinadores, médicos, psicólogos, sexólogos, psiquiatras, professores, jornalistas, escritores, cronistas, religiosos e especialistas diversos devem ser ouvidos para formarem suas opiniões não só na pauta constitucional ou jurídica, quanto nas questões sociais, morais e éticas no seio da nossa sociedade.

A experiência internacional através dos países que já adotam esta moderna pena tem muito a nos ensinar, as medidas de lá que restauram frutíferas devem ser aqui adaptadas a nossa realidade e, por fim, restando possível a aplicação de tal penalidade, o mais importante: A realização de um plebiscito para o povo decidir se é a favor ou contra a castração química.

Autor: Archimedes Marques (Delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela UFS) – archimedesmarques@infonet.com.br - archimedes-marques@bol.com.br - archimedesmelo@bol.com.br



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Crimes Perfeitos (da série Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa)

Fábio Fernandes • São Paulo, SP
1/11/2006
Júlio era o que se podia chamar de um rapaz empreendedor: com apenas vinte e quatro anos, montou seu próprio negócio. Ainda morando com os pais, um casal bonito, saudável e bem-estruturado de classe média, ele ampliou o próprio quarto, comprou um carro, saía nos fins-de-semana com os amigos. Júlio era um rapaz feliz. Um dia, porém, a rua amanheceu com as sirenes da polícia. Durante a madrugada, Júlio matou os pais a golpes de barra de ferro e facadas. Pelo menos quarenta em cada corpo. O que restou foi queimado.

Nos primeiros dias, Júlio negou, chamou um advogado. A alegação da defesa era a de que ladrões haviam invadido a residência. Não havia uma prova que confirmasse isso.
Não adiantando mais, mudou-se a estratégia. Nova alegação: perda súbita da sanidade, motivada por violenta emoção. Para justificar isso, tudo foi aventado: os pais viviam brigando, o pai tinha uma amante, a mãe também, ele apanhava quando criança. Nenhuma dessas hipóteses foi confirmada. Mas o advogado era bom. Júlio foi condenado, mas pôde cumprir a pena em liberdade por ser réu primário. Hoje, Júlio é o que se pode chamar de homem de visão: seu pequeno negócio prosperou, ele hoje é dono de uma grande cadeia de lojas, e ainda encabeça uma ONG cujo objetivo é lutar contra a violência urbana. Júlio é um homem feliz.


O CRIME (DE PLÁGIO) PERFEITO
(Rubem Braga)


Aconteceu em São Paulo, por volta de 1933. Eu fazia crônicas diárias no Diário de São Paulo e, além disso, era encarregado de reportagens e serviços de redação; ainda tinha uns bicos por fora. Fundou-se naquela ocasião um semanário humorístico, O Interventor, que depois haveria de se chamar O Governador. Seu dono era Laio Martins, excelente homem, de cabelos brancos e sorriso claro, boêmio e muito amigo. Pediu-me colaboração; o que podia pagar era muito pouco, mas eu não queria faltar ao amigo. Escrevi algumas crônicas assinadas. Depois comecei a falhar muito, e como Laio reclamasse, inventei um pretexto para não escrever. Seu jornal era excessivamente político, e eu não queria tomar partido na política paulista. Laio não se conformou: "Então ponha um pseudônimo! Prometi de pedra e cal, mas não cumpri. Laio reclamou novamente, me deu um prazo certo para lhe entregar a crônica. No dia marcado eu estava atarefadíssimo, e, quando veio o contínuo buscar a crônica para O Interventor, eu cocei a cabeça - tive uma ideia. Acabara de ler uma crônica de Carlos Drummond de Andrade no Minas Gerais, órgão oficial de Minas, com um pseudônimo - algo assim como Antônio João, ou João Antônio, ou Manuel Antônio, não me lembro mais; ponhamos Antônio João. Botei papel na máquina, copiei a crônica rapidamente e lasquei o mesmo pseudônimo. Dias depois recebi o dinheiro da colaboração, juntamente com o pedido urgente de outra crônica e um recado entusiasmado do Laio: a primeira estava esplêndida! Daí para frente, encarreguei um menino da portaria, que estava aprendendo a escrever a máquina, de bater a crônica de Drummond para mim; eu apenas revia para substituir ou riscar alguma referência a qualquer coisa de Minas. Pregada a mentira e praticado o crime, o remédio é perseverar nesse rumo hediondo; se às vezes sentia remorso, eu o afogava em chope no bar do alemão ao lado, e o pagava (o chope) com o próprio dinheiro do vale de Antônio João. O remorso não era, na verdade, muito: Carlos não sabia de nada, e o que eu fazia não era propriamente um plágio, porque nem usava matéria assinada por ele, nem punha o meu nome em trabalho dele. E Laio Martins sorria feliz, comentando com meu colega de redação: "O Rubem não quer assinar, mas que importa? Seu estilo é inconfundível!" O estilo era inconfundível, e o chope era bem tirado; mas você pode ter a certeza, Carlos Drummond de Andrade, que muitas vezes eu o bebi à sua saúde, ou melhor, à saúde de Antônio João, isto é, à nossa. Dos 25 mil-réis que Laio me pagava, eu dava 5 para o menino que batia à máquina; era muito dinheiro para um menino naquele tempo, e isso fazia o menino feliz. Enfim, lá em São Paulo, todos éramos felizes graças ao seu trabalho: Laio, o menino, os leitores e eu - e você em Minas não era infeliz. Não creio que possa haver um crime mais perfeito.


Até mais leituras.....







Um comentário:

  1. Oi Pessoal,
    Segue um exemplo de crônica reflexiva. Rubem Braga reflete sobre o fazer poético a partir de versos de um poeta desconhecido:

    O MISTÉRIO DA POESIA
    Rubem Braga

    Não sei o nome desse poeta, acho que boliviano; apenas lhe conheço o poema, ensinado por um amigo. E só guardei os primeiros versos: Trabajar era Bueno em el Sur. Cortar los árboles hacer canoas de los troncos.

    E tendo guardado esses dois versos tão simples, aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia.

    O poema era grande, mas foram essas palavras que me emocionaram. Lembro-me delas às vezes, numa viagem, quando estou aborrecido, tenho notado que as murmurro para mim mesmo, de vez em quando, nesses momentos de tédio urbano. E elas produzem em mim uma espécie de consolo e de saudade não sei de que.

    Lembrei-me agora mesmo, no instante em que abria máquina para trabalhar nessa coisa vã e cansativa que é fazer crônica.

    De onde vem o efeito poético? É fácil dizer que vem do sentido dos versos; mas não apenas do sentido. Se ele dissesse: Era Bueno trabajar em el Sur , não creio que o poema pudesse me impressionar. Se no lugar de usar o infinitivo do verbo cortar e do verbo hacer usasse o passado, creio que isso enfraqueceria tudo. Penso no ritmo: ele sozinho não dá para explicar nada. Além disso, as palavras usadas são, rigorosamente, das mais banais da língua.
    Reparem que tudo está dito com elementos mais simples: trabajar, era Bueno,Sur, cortar, árboles, hacer canoas, troncos.

    Isso me lembra um dos maiores versos de Camões , todo ele também com as palavras mais corriqueira de nossa língua:
    "A grande dor das coisas que passaram".

    Talvez o que mais me impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia. Nesse poema sul-americano a idéia da canoa é também motivo de emoção.

    Não há coisas mais simples e primitiva que uma canoa feita de tronco de árvore; e acontece que muitas vezes a canoa é de grande beleza plástica. E de repente me ocorre que talvez esses versos me emocionem particularmente por causa de uma infância de beira-rio e de beira-mar. Mas não pode ser: o principal sentido dos versos é o do trabalho; um trabalho que era bom não essa "necessidade aborrecida" de hoje. Desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez.

    Fala-se muito em mistério poético; e não faltam poetas que procurem esse mistério enunciando coisas obscuras, o que dá margem à muito equívoco e muita bobagem . Se na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem profundas...
    Disponível em:http://www.eeagorajose.kit.net/estilos/cromistetiobraga.htm

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